Instabilidade na pecuária de corte
Toda a sorte de instabilidades está pairando sobre a pecuária brasileira com fortes reflexos na pecuária mato-grossense. Neste período do ano com o reinicio das aulas, um segmento, o da merenda escolar, puxa a curva do consumo para cima. As aulas nas regiões Sul e Sudeste estão ainda paralisadas e, portanto, não se viu a retomada do consumo deste importante público, como consequência, se verifica a queda nos preços da carne naquelas regiões na ordem de até 3,0%.
O Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), em seu último boletim, traz informações que denunciam mais instabilidades com reflexos negativos na cadeia da carne bovina. Uma delas é a redução de mais de 65,0% no volume das exportações para a União Européia no primeiro semestre deste ano. Isto é muito ruim! Pior que isto é o fato do Brasil utilizar apenas 25% da cota Hilton 2008/2009 de cinco mil toneladas. Ou seja, não fomos capazes de desenrolar os entraves colocados pelo Sisbov.
Quanto à oferta de bois gordos, os proprietários rurais estão fazendo sua parte. Mesmo numa verdadeira queda-de-braço com frigoríficos que os devem, estão mantendo escalas de abate. Ou seja, contribuem para a redução do preço da arroba.
Assim, mesmo com toda a sorte de insegurança, o pecuarista está fazendo com que a cadeia não interrompa suas atividades. Por ouro lado, a demanda registra um fato interessante. O preço do traseiro diminui enquanto o do dianteiro aumenta. Claro que este fenômeno está diretamente ligado à redução das exportações, onde as peças nobres eram comercializadas, assim, ficando no mercado interno são necessárias promoções para eliminar excessos de estoques.
Esta situação de instabilidade na pecuária mato-grossense será sentida por todos os portes de produtores, ou seja, mesmo aqueles pequenos produtores rurais que vendem tão-somente alguns poucos bezerros de suas velhas vacas leiteiras sofrerão as conseqüências da redução do preço da carne no Brasil e em Mato Grosso. Ninguém escapará. Por certo, haverão reflexos em toda a economia do Estado, afinal, somos o maior produtor de gado bovino.
Apenas estes fatos já indicariam que a cadeia da carne esta com sérios problemas, porém, tem mais, como a situação falimentar da indústria e elevados custos de produção. Uma dessas indústrias apresentou um plano de recuperação judicial, que mesmo numa produção de ficção, seria difícil de ser aceito.
A ideia apresentada é criar uma nova empresa, transferir o patrimônio da empresa falida para uma nova companhia, porém, dois terços das dívidas ficariam com a antiga empresa. Este frigorífico tem em torno de R$ 3,0 bilhões de dívidas. Os pecuaristas seriam pagos com dinheiro emprestado do governo. Não aposto um centavo num negócio com esta engenharia!
Um único aspecto, no entanto, relacionado ao aumento do consumo interno é interessante. Se tivermos as escalas de abates mantidas, se a carne majoritariamente continuar sendo consumida no mercado interno brasileiro, se os preços do dianteiro forem mantidos em patamares elevados, isto implica em afirmar que conseguimos ampliar o consumo de carne nas camadas de menor renda da sociedade. Portanto, aumentou-se o consumo de proteína, o que significa a população com melhor qualidade de vida.
Mas, esta é uma situação bancada pelo produtor rural que não conseguirá mantê-la. Ou se resolve a falta de harmonia na cadeia da carne bovina, ou veremos uma das mais antigas atividades econômicas do Brasil minguar em tamanho e qualidade. Afinal, quem conseguirá continuar fazendo milagres em manter uma atividade com sérios problemas de renda?
Um bom começo para os pecuaristas seria reduzir gradualmente o tamanho de seu rebanho. Afinal, está claro que ser o rei do gado não está dando o necessário retorno para financiar os fatores de produção.
Amado de Oliveira Filho é economista, especialista em mercados de commodities agropecuárias e direito ambiental e escreve às quartas-feiras em A Gazeta. E-mail: amadoofilho@ig.com.br






